Por Que as Crianças Brincam no Psicólogo? O Lúdico Como Linguagem Terapêutica
Você já se sentiu incompreendido?
Imagine que você viesse falar comigo em português — e eu insistisse em responder em inglês, uma língua que você não domina, simplesmente por achar que "esse é o melhor jeito" de conversar com você.
Frustrante, não é?
Pois é exatamente isso que acontece quando tentamos usar a linguagem verbal adulta como único caminho de comunicação com as crianças. A linguagem da criança é outra — e ela tem um nome: brincar.
Este artigo fala sobre o brincar dentro do processo terapêutico. Se você quer entender a importância do brincar no desenvolvimento cotidiano da criança, leia também nosso artigo A Importância do Brincar no Desenvolvimento Infantil.
Na Parte 2 desta série, falamos sobre a construção do vínculo terapêutico. Se você ainda não leu, vale a pena começar por lá.
Para a versão resumida dessa etapa, acesse a seção Como Funciona — Etapa 03 do nosso site.
"As crianças não brincam de brincar — elas brincam de verdade"
O poeta Mário Quintana já dizia isso com precisão. E Lawrence Cohen, psicólogo especialista em parentalidade e autor de Playful Parenting (Editora Manole), complementa:
"As crianças não dizem: tive um dia difícil, podemos conversar? Elas dizem: você brinca comigo?"
Essas duas frases resumem algo fundamental: o brincar não é uma pausa das coisas sérias da vida de uma criança. O brincar é a coisa séria.
É por meio do brincar que a criança pensa, sente, processa e se comunica com o mundo. É, portanto, por meio do brincar que o trabalho terapêutico com ela acontece.
O que o brincar revela?
No espaço terapêutico, o brincar é muito mais do que diversão. Ele é uma janela para o mundo interno da criança.
Ao brincar, a criança:
- Expressa conflitos e sentimentos que ainda não consegue nomear com palavras
- Revela contextos de vida através dos personagens e histórias que cria
- Mostra como reage a situações de ganho, perda e divisão — o brincar ansioso, agressivo ou inibido diz muito sobre o que ela está vivendo
- Demonstra seu nível de desenvolvimento emocional e cognitivo através da forma como organiza e conduz as brincadeiras
- Elabora experiências difíceis — ao representar simbolicamente situações da vida real, a criança encontra formas de compreendê-las e ressignificá-las
O brincar não é apenas o meio de comunicação — ele é também o instrumento de trabalho. É nele que o processo terapêutico acontece, do início ao fim do acompanhamento.
Como o profissional trabalha com o brincar?
O terapeuta não apenas observa — ele participa, acompanha e intervém dentro do universo lúdico da criança.
Um ponto que muitos pais desconhecem e que faz toda a diferença: as crianças costumam receber muito melhor as observações do profissional quando elas se referem ao brincar — e não diretamente a elas.
Ou seja, ao invés de dizer "você ficou com raiva", o profissional pode trabalhar esse sentimento através do personagem que a criança criou na brincadeira. Isso reduz a resistência, respeita o tempo da criança e torna o processo mais natural e eficaz.
A criança tem liberdade para brincar, desenhar ou falar sobre qualquer tema — com a segurança de que esse ambiente de liberdade e limites a protege.
Conheça também o serviço de Psicoterapia Infantil e entenda como a abordagem lúdica — terapia lúdica — é aplicada no consultório.
A fase central do acompanhamento
Após o período de construção do vínculo, o acompanhamento entra na sua fase mais longa e mais rica.
É o momento em que a criança já se sente segura o suficiente para se expressar com mais liberdade. As questões que motivaram o acompanhamento ganham profundidade — emoções, conflitos e formas de se relacionar começam a ser explorados e elaborados ao longo das sessões, sempre através do brincar, sempre no ritmo da criança.
Por que o brincar é tão poderoso?
Winnicott, um dos maiores estudiosos do desenvolvimento infantil, respondeu a essa pergunta com uma das frases mais precisas da psicologia:
"É no brincar e somente no brincar que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar a sua personalidade integral e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o seu verdadeiro eu."
— D.W. Winnicott, O Brincar e a Realidade (Imago Editora)
O brincar não é um atalho para chegar ao "trabalho de verdade" — ele é o trabalho de verdade. Reconhecer isso é fundamental para confiar no processo terapêutico e no ritmo de cada criança.
No próximo artigo da série, vamos falar sobre a última etapa do acompanhamento: a despedida — e por que o encerramento de uma terapia é, em si, uma experiência de crescimento.
Acompanhamento Psicológico Infantil
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